[Autor: Miguel Mello. Doutor. Psicólogo. Constelador. Autor do livro “ Constelações Familiares: evoluções”-   http://a.co/1HGy3Kn]

                O campo morfogenético produz um ambiente energizado nos trabalhos de constelação. Ele é conhecido como campo do conhecimento e possibilita que os representantes se conectem ao conhecimento útil para trabalhar o tema específico do cliente.

                Esse fenômeno energético ocorre de forma natural. No entanto, há participante que reage mais intensamente (até mesmo com desconforto) pelo fato do emergente do campo morfogenético ser ressonante com o participante: existe una conexão entre o sistema do participante e o tema do cliente que está sendo trabalhado.

                Nas constelações, isso ocorre com frequência porque existe o fenômeno sincronístico: as pessoas presentes naquele dia, naquele trabalho, não compareceram por mera coincidência. Pelo contrário, na realidade, elas estão ali por existir uma convergência entre as suas vidas, os seus sistemas e os temas trabalhados. Quando alguém é escolhido para representar um papel, o papel tem a ver com ele e o sistema dele. O mesmo raciocínio se aplica ao participante: quem assiste, precisa enxergar algo e trabalhar aquilo em si e no seu sistema.

Uma vez que trabalhei um tema de dependência química, tinha uma moça que, de tão perturbada que ficou com o ambiente, parecia que iria sair correndo. Mantinha o frágil equilíbrio com uma postura cética e prepotente.  Era uma reação psicológica de refuta a um trabalho de reversão de causas sistêmicas da dependência química do cliente e algo que lhe dizia respeito, por ela mesmo fazer uso de drogas também. O cosmo lhe dizia: olhe para isso, reconheça isso, organize isso... Ela poderia ter tido as seguintes reações: a) ter saído correndo dali com alguma desculpa (não fez isso); b) ter permanecido e passado mal (foi o que aconteceu) e c) ter ficado, passado mal e marcado uma constelação para si para trabalhar aquele problema (infelizmente, isso não ocorreu).

 Tem gente que cai dormindo. Participei de uma em que era trabalhada a classe política de uma cidade e caíram 19 pessoas dormindo.  Tem gente que tem náuseas ou diarreia. Quantas vezes o representante ou o participante sai correndo para ir ao banheiro. Tem gente que chora compulsivamente e a gente passa o rolo de papel higiênico porque só o lenço não dá conta; termina a constelação a pessoa, sorrindo fala que está bem e que não sabe o que aconteceu.  Tem vezes que o grupo todo fica gelado. Lembro de uma vez que eram tantos mortos que estavam sendo trabalhados, que foram distribuídos cobertas e blusas (era verão).

  Uma vez, todos ficaram com sede e calor mas não sabiam que estava sendo trabalhado o sistema de uma pessoa que mora no deserto do Oriente Médio (e era inverno!).

  Outro dia alguém disse que eram reações psicológicas. Sou psicólogo, doutor, mestre, especialista em vários campos do conhecimento psicológico, pesquisador, professor, psicanalista, psicoterapeuta e posso responder: Claro que são! Porque a gente ainda não tem a opção de arrancar a psique para realizar uma experiência!!  Em realidade, são choques no corpo e na psique, decorrentes de uma alteração energética de campo. Simplesmente dizer que são reações corporais não explica nada de novo.

                    O fechamento de uma constelação embasada ética e tecnicamente, inclui uma breve rodada que serve para saber como as pessoas estão se sentindo. Jamais faço essa rodada para abrir precedente para achismos do grupo sobre a vida do cliente ou para as pessoas externarem as impressões pessoais sobre o trabalho que acabou de ser feito. Aliás, corto isso com muito jeito ou, quando insistem, com pouco jeito mesmo. Constelação não é psicoterapia de grupo voltada para insight e baseada em identificações cruzadas. Pelo contrário, a rodada é para os participantes enfocarem a si próprios, muito brevemente, para informarem se ficaram com algum resquício energético do trabalho, algo do tipo "estou bem" ou "não estou bem ainda". Caso a pessoa continue a não se sentir bem energeticamente, emprego alguns procedimentos simples de liberação que faz a energia estranha "descolar" dela. Cumpre ressaltar que a energia "estranha, na realidade, não é tão estranha assim porque ela é ressonante com a pessoa ou com o sistema dela.  

                      Tem casos de participante que tem uma ligação amorosa com o sofrimento por ser uma marca de um sistema que cultiva o sofrimento e se relaciona com o mundo por meio dele. Esse participante vai grudar em tudo que é negativo do cliente porque tem uma atração atávica ao sofrimento. Geralmente, aponto isso e estimulo a soltar o que não lhe serve ou não lhe pertence, para andar pra frente com força e esperança.

                      A energia do campo morfogenético não é brincadeira, tanto que fecho acesso para grávidas e crianças. O feto e a criança não conseguem modular a força energética impelidora do campo, tendo uma influência perturbadora e prejudicial para as entradas energéticas corporais naturais ainda imaturas.

                     Contudo, o campo não deve ser temido porque aprendemos muito dentro dele, nos conectamos com as próprias forças e desenvolvemos capacidades naturais que, em outro contexto, passariam desapercebidas. Uma dica é fazer a experiência de vir participar de uma constelação respeitando a regra de ouro da natureza: dois ouvidos e uma boca, isto é, exercitar mais o ouvir mais do que o falar.

                     A constelação é um trabalho do sentir e se conectar com o campo. Geralmente as grandes sacadas são os maiores tiros-n’água quando se trata de constelação. Melhor seria então deixar os julgamentos, as opiniões, as crenças religiosas, etc. em casa para aprender o modo fenomenológico de olhar para a vida.

                     Existe uma complexidade na simplicidade das constelações, mas isso é assunto para outro dia. Se tem uma coisa que as constelações nos ensinam, é a simplicidade das coisas muito complexas.

NOTA: Este é um pequeno trecho do livro citado acima, o qual indicamos a leitura para todos aqueles que se interessam pelas constelações, principalmente para os alunos que estão fazendo formação.